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Náuseas

Neuras do dia-a-dia

Neuras do dia-a-dia

Náuseas

10
Jul20

fragmentos (4)

náuseas

Vai amanhã a enterrar o sr. António. Bom homem. Na sexta-feira parecia muito cansado quando ia para a música. Parece que o maestro da banda o tratava muito mal, implicava com ele por não conseguir já tocar o trombone. E neste último ensaio o sr. António saiu a meio, sem dizer uma palavra, depois de ter sido novamente humilhado pelo mestre. Levantou-se, com um ar muito admirado, arrumou os seus papeis, limpou o trombone e dobrou a estante da música. Não respondeu a nada que lhe diziam. "Já vai sr. António?". "Então, sr. António? Não vale a pena ficar assim". "Está tudo bem?". Regressado a casa, deitou-se, adormeceu e não voltou a acordar. A dona Amélia diz que o estranhou, mal lhe falou, nem quis comer nada. Lá foi.

Desde pequeno que tocava trombone. Passava horas a estudar os passo-dobles e as marchas de procissão. Maravilhava-se com a música, apesar de nunca ter sido um bom músico. Mas adorava vestir a farda aos domingos, e descer a avenida a marchar enquanto se concentrava no papel da música. Nunca olhava para ninguém, nunca respondia a quem o cumprimentava do passeio.

O sr. António parece ter descoberto nessa última noite que não havia já lugar para ele. E deixar de tocar na banda da música era coisa impensável. Como continuar a viver sabendo que no domingo a banda ia à rua e ele ficaria em casa? Decidiu então que tinha limpo o trombone pela última vez.

 

07
Jul20

A náusea habitual

náuseas

Depois de muita burocracia (medir temperatura, desinfectar as mãos, calçar umas capas nos sapatos), lá consegui entrar. A senhora que me abriu a porta indica-me o local onde devo aguardar que me chamem para a consulta de medicina dentária. "Sente-se ali numa daquelas cadeirinhas, que já o vêem chamar."

Dirijo-me à zona indicada onde já duas ou três pessoas aguardam também que as chamem. Estão todas bastante distantes umas das outras, claro, e olham-me por detrás das suas máscaras. Aproximo-me de vários sofás num local afastado e reparo que em todos eles há um símbolo. Como é habitual, o meu único objectivo é sentar-me rapidamente, deixar de sentir o olhar das outras pessoas quanto
antes. Não presto atenção ao símbolo no sofá onde me sento, não penso nele. Apenas desejo ocultar-me.

Olho lá para fora, respiro profundamente, procuro recuperar a calma. Pouco a pouco começo a olhar à volta e a minha atenção cai finalmente no símbolo dos sofás. Um símbolo que indica que os sofás não devem ser utilizados. A calma desaparece novamente. Que fazer? Sinto o suor a começar a aflorar-me as têmporas, e não consigo decidir o que fazer. Levantar-me? Vou-me sentir idiota se o fizer, todos vão voltar a olhar-me. "Que palerma! Ignorou um sinal enorme!". E que me importa o que pensam? Vou levantar-me. Mas não levanto. Decido ignorar o símbolo. Mas isso é ainda mais idiota. Não sei o que fazer. Pode ser que me chamem rapidamente. Mas.. e quando me vierem chamar vão ver que estou sentado num local proibido, vão-me perguntar porque ignorei o sinal.

Volto a olhar lá para fora, tento retomar a calma respirando lentamente. Imenso tempo passou (quanto terá sido realmente?) até que por fim me chamam. Não me repreendem.

 

04
Jul20

fragmentos (3)

náuseas

Dia fresco. Levantei-me cedo como sempre faço aos Domingos. Não porque tivesse muito a fazer, mas apenas por hábito. Saí de casa e fiquei a ver o nevoeiro lá fora, que lentamente dispersava, com o sol a começar a adivinhava-se na claridade difusa de aguarela. Gosto de sentir o frio doce arrepiar-me a pele, a humidade matinal como se fosse uma língua áspera de gato a lamber-me as pernas.

Infelizmente, os sinos da igreja lembraram-me que era também o dia da festa da vila, e logo o estrepitar dos foguetes expulsou a paz que o dia parecia prometer. Dia de festa, de foguetes, de confusão. Arrastaram-se então penosamente as horas, num ruidoso dia com muitas pessoas.

E o sr. António não foi tocar. Tinha-o visto na sexta-feira, de bicicleta, com o trombone. Ia para o ensaio. Mas hoje, dia da festa, não estava na banda. No trombone ia apenas o rapaz novo. Algo se terá passado com ele certamente.

03
Jul20

Se não fosse humano gostaria de ser uma Efémera

náuseas

mayfly.jpg

Se não fosse humano gostaria de ser uma Efémera. Não que goste particularmente de insectos (tenho pavor de aranhas!), mas sempre invejei a fugacidade que é a vida deste pequeno animal. Ter tido uma vida em que apenas a infância contou e onde tudo fluiu docemente no leito de um rio.

Quando esta fase da vida finalmente termina e a idade adulta chega, deixa de ser necessário comer, beber ou dormir. Restam apenas algumas horas nesta fase final, passadas a voar e a tentar propagar a espécie. E tudo termina rapidamente, a Efémera extingue-se suavemente na água. Um ciclo doce. Uma existência fugaz.

 

(Isto foi o desafio: o outro animal lançado pela Ana.)

 

23
Jun20

Serenata Sintética

náuseas

Eis um curioso poema que hoje aprendi:

Lua
morta.

Rua
torta.

Tua
porta.

É de Cassiano Ricardo, um poeta brasileiro que desconhecia (na realidade não conheço muito da literatura brasileira). Foi-me dado a conhecer pela Ana Luísa Amaral, num programa da Antena 2 que sigo há já bastante tempo chamado O Som que os Versos Fazem ao Abrir (nome fantástico, de um poema de Emily Dickinson!).

Uma nota curiosa acerca do poema (dada pela Ana Luísa Amaral, claro!) é que é todo feito com pequenas mudanças de letras:

Rua torta.

Lua morta.

Tua porta.

Mais um poeta a investigar.

 

22
Jun20

fragmentos (2)

náuseas

fragmento-02.jpg

Acordar muito cedo e ficar quieta, a escutar o vento no pomar. É o meu momento preferido do dia. Sentir o dia a esperguiçar-se lá fora, a querer prolongar a noite mais um pouco. Digo a mim mesma que a madrugada não vai acabar, finjo acreditar que a doçura desta penumbra matinal durará para sempre. Por vezes, nesses momentos, gosto de me concentrar nos meus dedos dos pés e começar a sentir os dedos cada vez mais longe e eu a ficar grande, cada vez maior, enorme.  É uma vertigem que tenho desde criança, consigo sentir quase fisicamente a imensidão do meu corpo que se alonga infinitamente até ficar tonta e ter de voltar ao meu corpo.

Por vezes um pássaro lá fora, um cão a ladrar, um galo. Recordam-me que em breve tudo irá terminar e a vida irá retomar. Lembro-me novamente, não sei porquê, do sr. António. Disseram-me que a música lhe corre mal, que há não sei que chatices lá na banda. Há tantos anos lá, a tocar trombone, e agora tentam pô-lo fora porque não há já lugar para ele.

 

16
Jun20

O dia de Leopold Bloom

náuseas

bloomsday.jpg

Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed. A yellow dressinggown, ungirdled, was sustained gently behind him on the mild morning air. He held the bowl aloft and intoned:

Introibo ad altare Dei.

Assim começa o imenso "Ulisses" de James Joyce, e assim começa a epopeia que é o dia 16 de Junho de 1904.  Foi já há imenso tempo que o li.  Não na língua original mas em português.  Mas lembro-me que me marcou pelo estilo, pelo modernismo, pela incrível dificuldade que tive de me embrenhar no stream-of-consciousness.  Claro que apenas apreendi a superfície da obra e uma releitura está já prometida há muito.

Um feliz (resto de) Bloomsday!

 

15
Jun20

fragmentos (1)

náuseas

Lá vem ele, coitado. Parece muito cansado, devia deixar-se destas coisas. Não sei o que se passa, mas a cada semana parece pior. E eu devia também ir para casa. Dores de costas de estar a trabalhar aqui no quintal toda a tarde.  Outras dores mais profundas da fatiga desta vida, desta falta de esperança. Os filhos distraíram-me durante alguns anos, mas agora o vazio que eles deixaram
angustia-me e mostra-me que não fiz nada. Já passei dos cinquenta e existi da mesma maneira que a minha cadela. Comi, dormi, pari. E trabalhei. Em tempos quis escrever. Li muito, li tudo o que consegui. Mas a vida atrapalhou-me e agora ficou-me a amargura de ter falhado tudo.

"Já vai para a música, sr. António?"

Passei muitos anos a dizer a mim própria "Rosa, amanhã é que vai ser. Amanhã abres o teu caderno e começas a escrever o teu livro". Mas nunca aconteceu.   Por vezes até abri o caderno, e até conseguia escrever umas folhas. Mas desanimava rapidamente. No dia seguinte voltava atrás para ler o que tinha escrito, e riscava tudo.

  "Pois é, dona Rosa. Mais uma sexta-feira, mais um ensaio."

Pobre homem! Parece ter angústias maiores que as minhas. Mas tenho de ir embora, está quase na hora de jantar.

12
Jun20

O meu rosto em cem palavras

náuseas

Aborrecido, vi por acaso o desafio "descreve o teu rosto em cem palavras" num blog da Miss X.  Porque não?

olho-me no espelho
e encontro novamente a tristeza nos olhos
tristeza que vem já de muito longe
do tempo em que eu, fauno, pulava alegre
na vida e nos outros
tristeza que se estende ao sorriso
e que se confunde frequentemente com ironia

olho-me no espelho
e vejo o que fui
na lembrança de ter tido cabelo
troquei-o por sonhos que amargam agora na boca
azedaram os sonhos e encovaram os olhos
antes ter cabelo que sonhos
mas é tarde
o fauno morreu deixou apenas a flauta que ninguém toca

olho-me no espelho
e vejo um rosto cinzento, magro e sem ilusões

 

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